O pequeno mundo do fundo do mar
Um levantamento da vida marinha microscópica revela seres raros do litoral sudeste do país
Algumas imagens de seres do fundo do mar são surpreendentes até para mergulhadores experientes. O Hypselodoris picta lajencis, na foto abaixo, por exemplo. Trata-se de um molusco que foi registrado pela primeira vez na região da Baía de Ilha Grande, em Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Se você mergulhasse a 15 metros de profundidade, talvez até passasse por ele – mas dificilmente repararia num ser de apenas 25 milímetros. Sua beleza só se torna deslumbrante quando é revelada pelas lentes macro que permitem observar detalhes invisíveis a olho nu. Esse é o mérito do trabalho do fotógrafo e mergulhador Paulo Boneschi, que mapeou a vida marinha da baía. Outro de seus trunfos foi o nudibrânquio do gênero Tambja – um molusco de apenas 12 milímetros cuja forma lembra a cabeça de um rinoceronte multicolorido suspenso solitariamente na areia do mar.
Boneschi passou um ano pesquisando. Somou 80 horas de mergulho. O resultado do trabalho virou o livro Ilha Grande Submersa. “Para notar esses animais e perceber seu comportamento, é necessário uma atenção que muitas vezes não ocorre em um mergulho-padrão”, afirma.
Achar os minúsculos seres arredios, em geral camuflados, é apenas o início do processo. O foco ideal para a fotografia em muitos casos exigiu que Boneschi ficasse mais de duas horas embaixo d’água. O que ajudou foram as condições da baía. Com 350 quilômetros de espelho de água e uma visibilidade de 10 metros, a região é considerada um paraíso para o mergulho.
As belas imagens do mar de Ilha Grande dão uma idéia de como pode ter sido o litoral sudeste do Brasil, antes da degradação gerada pela urbanização desordenada. “Regiões como a Baía de Guanabara podem ter abrigado belezas e biodiversidade parecidas”, diz Adriana Carvalhal Fonseca, bióloga marinha do Instituto Chico Mendes (IcmBio), responsável pela identificação das espécies registradas por Boneschi. “O livro também serve de apelo para evitarmos que a Ilha Grande sofra a mesma degradação de outros trechos do litoral. A região já está sob a ameaça do turismo descontrolado, da exploração de petróleo, das usinas nucleares e da pesca predatória.”

CAMUFLAGEM
Os moluscos nudibrânquios adotam cores vivas como as dos corais para viver em segurança

DESLUMBRANTE
O Hypselodoris picta lajencis, uma subespécie de molusco de 25 milímetros, foi registrado pela primeira vez na baía

TÍMIDOS
Dois peixes góbio-neon escondidos entre corais. Algumas fotos exigiram duas horas de espera embaixo d’água

RARO
O nudibrânquio do gênero Tambja, molusco de 12 milímetros que lembra um rinoceronte, só foi registrado duas vezes no litoral brasileiro

BELEZA REVELADA
Craca da família Balanidae. Ampliados pelas lentes, seres banais revelam suas formas surpreendentes

TRANSPARENTE
Close de uma fêmea do peixe macaquinho-cabeça-preta, de 3 centímetros, sobre zoantídeo (corais altamente letais ao ser humano)
Fonte: Portal G1
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